Emoções e afectos

O ser humano é uma unidade psicofísica (mente/corpo), um ser vivo que consegue percepcionar, agir intencionalmente, raciocinar e sentir, além de ter uma linguagem complexa. Para tudo isto contribui a actividade de um cérebro muito desenvolvido que lhe permite igualmente ser consciente e também auto-consciente.
Geralmente a ciência atribui ao ser humano faculdades físicas e psicológicas. Mas muitas coisas que lhe são próprias escapam a estas fronteiras pois não são físicas nem mentais. E, todavia, são atributos humanos. Um bom exemplo é a timidez, geralmente caracterizada como uma emoção quando, na verdade, é uma disposição de carácter e temperamento (ou seja, um atributo da pessoa). Embora pertença ao domínio do mental não é uma característica da mente mas da pessoa.

Clarificar conceitos
A ciência psicológica e a neurociência (que estuda o sistema nervoso e o cérebro) insistem em algumas confusões conceptuais. Estas chegam ao domínio público através da informação e instala-se então alguma dificuldade em compreender determinadas ideias.
Alguns especialistas mais esclarecidos, como o M.R. Bennett (professor de Fisiologia e catedrático da Universidade de Sidney, na Austrália) e P.M.S.Hacker (membro do St.John´s College, em Oxford e um autoridade em filosofia) afirmam peremptoriamente que o termo “mente” não designa coisa de espécie alguma e que ao atribuirmos-lhe determinadas faculdades psicológicas é um erro conceptual. Ou seja, estes autores defendem que devemos falar em atributos humanos e não em atributos do cérebro ou da mente, tais como capacidades, aptidões, obrigações, susceptibilidades, disposições, tendências e inclinações.
Esses atributos, onde se inclui a faculdade de “sentir”, pertencem à pessoa e não à mente ou ao seu cérebro. Assim, a palavra “sentimento”, de acordo com aqueles autores, pode por vezes significar uma sensação (sentir uma dor), outras vezes uma emoção (sentir-se irritado); significar uma inclinação para agir (sentir como se estivesse a ir para o cinema); uma forma de percepção (sentir uma moeda no bolso); uma forma de pensamento ou opinião (sentir que a justiça é lenta); uma inclinação para acreditar (sentir que alguém está a mentir); e, por vezes, indicar uma condição física ou psicológica geral (sentir-se doente ou satisfeito).

Sentimentos que são sensações
Existem dois tipos de sensações. Um está relacionado com a sensibilidade localizada (uma dor ou um prurido). O outro refere-se à sensibilidade corporal geral (sentir-se bem ou mal; em boa ou má forma). Esta mistura-se com a sensibilidade da chamada condição psicológica geral, como sentir-se tranquilo ou interessado.
Mais uma vez é importante clarificar que as sensações são percepcionadas pelas pessoas. Elas é que são o sujeito das sensações sendo errado dizer que é o cérebro ou é a mente.

A afectividade
Para os autores a que estamos a fazer referência, as emoções são uma subclasse de afectos, isto é, sentimentos (mas não sensações como as que atrás referimos).
Assim a afectividade divide-se em emoções, agitações e disposições. Os afectos podem revelar-se também através de atitudes (como gostos e aversões, aprovação e reprovação) e traços de carácter (tais como benevolência, irascibilidade e o espírito vingativo).
Existe ampla controvérsia sobre o que são emoções. Alguns estudiosos entendem que as emoções são algo muito pessoal e interno a cada pessoa. Outros, como os antropólogos, consideram as emoções como sendo criadas entre as pessoas, ou seja, resultantes da interacção entre elas.
Certo é que as emoções são a manifestação externa e dinâmica do estado afectivo interno das pessoas e, por isso, são observáveis. Ou seja, as emoções exprimem-se através do rosto e das reacções corporais. Elas podem ser avaliadas em termos de tipo, intensidade, extensão, variabilidade e grau de congruência (alterado ou inalterado).
Os indivíduos normais demonstram uma multiplicidade de emoções, de intensidade variável, que, em geral correspondem e variam com os pensamentos e sentimentos expressos verbalmente. Elas pesam também nas nossas deliberações e nos desejos que albergamos.
Existem muitos tipos de emoções e diferentes formas de as agrupar. Uma das mais rigorosas divide as emoções em “emoções orientadas para os outros” e “emoções orientadas para o próprio”. Veja-se:

Emoções paradigmáticas – orientadas para os outros - são o amor, o ódio, a esperança, o medo, a cólera, a gratidão, o ressentimento, a indignação, a inveja, o ciúme, a piedade, a compaixão e o pesar;
Emoções de auto-avaliação – orientadas para o próprio - são o orgulho, a vergonha, a humilhação, o arrependimento, o remorso e a culpa.

Seguem-se as chamadas agitações. Estas são perturbações do afecto de curto prazo geralmente provocadas por algo exterior a nós. Exemplos de agitações: sentir-se excitado, sentir-se chocado, sentir-se espantado, sentir-se surpreendido, sentir-se assustado, sentir-se revoltado, etc. São experiências sentimentais passageiras causadas por aquilo que percepcionamos, aprendemos ou entendemos. Sendo perturbações podem alterar o nosso comportamento e travar as motivações. Por exemplo, podemos comportarmos de determinada maneira se estivermos “revoltados” com algo ou alguma pessoa. O comportamento será diferente se estivermos “surpreendidos”. Ou seja, as agitações são uma categoria de sentimentos que provocam diferentes “modos de reagir”.

As disposições são quadros mentais ou estados de espírito em que nos encontramos em cada momento. Podemos sentir-nos alegres, eufóricos, satisfeitos, irritados, melancólicos ou deprimidos. São pois uma “propensão para” nos sentirmos de uma determinada maneira e, por isso, estão ligados a estilos de comportamento. As disposições afectam os nossos pensamentos e reflexões. Veja-se como quando estamos alegres os nossos pensamentos são diferentes do que quando estamos melancólicos. Enquanto as emoções propriamente ditas promovem a acção (por exemplo, o medo provoca a fuga ou a defesa), as disposições não.

Além das emoções temos também as chamadas atitudes emocionais. O que são atitudes emocionais? São tomadas de posição emocional como, por exemplo, sentir saudades ou sentir ciúmes por alguém de forma prolongada. Em teoria podem confundir-se com sentimentos dado que se podem prolongar no tempo.

Finalmente, os traços de carácter emocional. Não se podem confundir com emoções nem com sentimentos. Na verdade, representam “propensões para ser e sentir” dadas as circunstâncias apropriadas e têm a ver com a natureza emocional das pessoas. Compreende-se melhor através de exemplos: há pessoas que se caracterizam por ser compassivas, outras por ser amáveis, outras invejosas, outras tímidas, outras aventureiras, etc. Definem, de algum modo, “maneiras de ser” e estão inseridas na sua personalidade. A educação e as experiências de vida durante a infância determinam muitos dos traços de carácter emocional.

Texto retirado do livro "Ciência das Emoções", de autoria de Nelson S Lima, no prelo.